Picar a cebola, lavar as batatas, fazer força para abrir a lata de atum. Amassar dois dentes de alho, fritá-los no azeite, trazendo pra essa cozinha o aroma de Domingo na casa da avó, no interior do Rio Grande do Sul. Uma pitada de sal, pimenta, orégano. A manhã é fria e a casa mal respira; o atum borbulha no aconchego de suas batatas. Um filhote de cachorro passeia entre as pernas, mordendo os dedos que vazam pela barra da calça velha de moletom.
Na fumaça que se levanta e dança no ar, embaralha-se a visão dos vidros de seus óculos, perde-se a nitidez dos contornos, como num quadro de Monet. Aos poucos a cozinha se transforma e já não é a mesma… as paredes tingem-se de verde, a mesa de mármore transforma-se em madeira talhada e pintada à mão, coberta pela toalha amarela com barrado de crochê. As cadeiras frias, agora com o corte da madeira artesanal, têm em seus encostos ora desenhos de rosas vermelhas, ora de toureiros com longas capas, desafiando grandes touros. O fogão torna-se antigo, o chão parece agora vermelho, com desenhos brancos. E assim, a cozinha toda já não é mais a cozinha fria e prática, mas a cozinha de tempos imemoriais. A própria menina já não se reconhece, mas passa a incorporar todas as mães, avós e bisavós de sua família, com suas alianças de casamento e escapulários no pescoço, com a imagem da Virgem segurando o Menino.
E assim, ela já não é mais a menina perdida na cidade grande, levando uma vida moderna em meio às janelas dos prédios que engolem os transeuntes. O preparo consegue o milagre de fazê-la voltar no tempo, de levá-la à aconchegantes tardes de Domingo, onde seus familiares conversavam alto e gesticulavam em torno da mesa repleta de carnes, batatas e pães. Ao tempo em que as mulheres se reuniam em volta do fogão e, ao picar os legumes, compartilhavam segredos. Aquela conversa, aquela conversa em torno do fogão… aquilo era imprescindível ao universo, aquilo sustentava a lógica do mundo sobre os ombros, aquilo dava de comer aos homens e fazia a vida prosseguir. Sem essa conversa à beira do fogão a vida era estéril e infértil. Ali nasciam as combinações de temperos que manteriam as famílias em volta das mesas, o que faria a vida dos membros adquirir sentido.
A menina atiça o preparo com uma pitada de pimenta, um pouco mais de sal. Experimenta e sente o gosto forte dos condimentos, espalhando-se na boca como se fossem notas musicais no ar, o cheiro espalha-se no ar como se fossem notas, como se as notas fossem o gosto forte na boca.
A menina não cozinha apenas com as mãos frias e o dedo queimado pelo cabo da panela. Cozinha com o coração, e as mãos são nada mais que extensão do coração dolorido, o coração que pesa quatrocentos e vinte e três quilos - todos eles, de saudade. A saudade que faz a moça parar de mexer a panela borbulhante e enxugar as mãos nos cantos da velha calça de moletom, e enxugar os cantos dos olhos na blusa de lã.
Eram duas e três lágrimas, e quatro e cinco, e agora seis, e agora seiscentas, e agora seiscentas e vinte e sete. E as lágrimas agora rolam sem piedade pelas maçãs do rosto, e caem no ladrilho vermelho com desenhos brancos.
São só saudades, saudades curadas no aconchego da cozinha, na fumaça que dança no ar, na panela borbulhando como poção de bruxa. Como poção de bruxa, o preparo é feito para se curar as saudades, é antídoto contra a dor das ausências - antídoto que traz à cozinha presenças invisíveis.
No gosto do tempero, há o gosto da boca de alguém que está longe.
A cozinha é o lugar dos diálogos. Diálogos com os antepassados, com os amigos distantes, com as notas musicais que dançam rapidamente no ar, com a cachorrinha que late choroso para surrupiar um petisco qualquer. Diálogos surreais e infinitos, que são o alimento do coração.
Diálogos barulhentos, porém insubstituíveis.
4 days ago~ Andreza Claudino
“Yeah I know, but I wanted to thank you for performing that song with me in glee club. Because it’s made me do a lot of thinking. And what I realized is why I’m such a bitch all the time. I’m a bitch because I’m angry. I’m angry because I have all of these feelings, feelings for you, that I’m afraid of dealing with because I’m afraid of dealing with the consequences. And Brittany, I can’t go to an Indigo Girls concert. I just can’t.”
2 weeks ago | 1 notetheme by: heloísa teixeira



